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Saberes afro-indígena-brasileiros em Vitória da Conquista

  • Foto do escritor: Alessandra dos Santos
    Alessandra dos Santos
  • 22 de set. de 2025
  • 3 min de leitura
Professor Itamar Pereira de Aguiar (USB)
Professor Itamar Pereira de Aguiar (UESB)

Dia desses participei de uma conversa no programa de extensão Complexidade e Saberes em Diálogo com o professor Itamar Pereira de Aguiar. Ele é professor aposentado de filsofia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e também estudioso de religião e cultura, principalmente da região da chapada de Vitória da Conquista. O professor Itamar falou sobre sua trajetória de estudos entre as cidades de Lençóis, na Chapada Diamantina, e Vitória da Conquista, na Bahia, e de sua pesquisa sobre as tradições religiosas afro-indígenas brasileiras.


Seu interesse nas tradições religiosas começou como forma de divertimento e também de curiosidade pois foi quando presenciou pela primeira vez uma pessoa entrar em transe em uma festa de jarê; uma festa para São Cosme e São Damião, em um mês de setembro: "período em que os atabaques de pau cavado ecoavam nos quatro cantos da cidade". Essa cultura religiosa teve origem na história da construção de cidades da Chapada Diamantina, como Lençóis, Mucugê, Andaraí onde aproximadamente 70% da população é constituída por negros que foram levados para trabalhar nos garimpos e passaram a construir, desde 1845 em diante, um modo de vida e cultura específicos.


O Jarê é uma religião caracterizada como uma forma de candomblé de caboclo, conforme definição do professor Ronaldo de Salles e Sena, atualmente aposentado pela Universidade de São Paulo (USP). Durante o doutorado do professor Ronaldo, o professor Itamar Aguiar atuou como seu assistente de pesquisa. Quando pesquisaram o jarê em Lençóis, chegaram à conclusão que ele era fruto da atividade econômica da cidade, do município, representada pelo diamante. De acordo com o professor Aguiar, o jarê era uma construção secular do diálogo das relações entre as pessoas sobre égide da economia do diamante.


Já quando fazia o doutorado na USP, com a professora Josildeth Gomes Consorte, o professor Itamar Aguiar começou a pesquisar as diversas tradições e religiões de Vitória da Conquista. Fez inclusive um mapa religioso da cidade localizando os templos de todas as religiões existentes e, na época, constatou que a cidade tinha mais templos de religiões afro-brasileiras do que de igrejas católicas, batistas, protestantes ou evangélicas. Constatou ainda que os terreiros de Candomblé possuíam uma grande diversidade. Cada casa ou terreiro administra a sua realidade, tem os seus rituais, tem o seu panteão e apresenta especificidades. Foi então que quis entender como essa diversidade religiosa foi se constituindo em Vitória da Conquista e, tal qual sua experiência em Lençóis, se pôs a investigar qual seria a economia predominante em Vitória da Conquista, desde a sua origem?


Verificou que o Planalto da Conquista surgiu a partir da pecuária extensiva, da criação de gado, de terras de grandes fazendeiros e foi daí que o povo de santo, as famílias de vaqueiros, de pequenos proprietários, de comerciantes, de pequenos agricultores ou criadores de gado, construíram ou ressignificaram a figura do caboclo boiadeiro.


O professor Itamar Aguiar chegou à conclusão que assim como em Lençóis, onde o jarê foi construído sobre a economia do diamante, em Vitória da Conquista as tradições religiosas locais são fruto da economia da pecuária, da atividade da pecuária, da economia do boi.


Portanto, é tal economia que organiza a visão de mundo, que organiza as atividades cotidianas desta sociedade ou, pode-se dizer, é a expressão das atividades cotidianas dos indivíduos que chegaram e viveram em Conquista. É o caboclo boiadeiro, que, para o professor Itamar,  tem status de orixá, uma vez que é a entidade mais importante dos terreiros de tradição locais.


Outra coisa interessante constatada pelo professor Itamar Aguiar foi que as pessoas se declaravam como sendo do candomblé e também católicas. Essa questão o levou a escrever artigos sobre a dupla pertença religiosa, quer dizer, de pessoas se declararem como pertencentes a mais de uma tradição religiosa, a mais de uma visão de mundo. Essa correspondência simbólica se manifestava através da identificação do caboclo boiadeiro como sendo o Bom Jesus da Lapa.


Foi uma conversa muito gostosa e em breve vou compartilhar a conversa gravada que tivemos com o professor Itamar Aguiar. Mas por enquanto deixo abaixo dois artigos seus para quem quiser saber um pouco mais sobre suas pesquisas.


Os candomblés do sertão: a diversidade religiosa afro-indígenabrasileira (2012). https://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/uploads/20170427133057.pdf






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