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É mais verdadeiro aquilo que sinto e experimento ?

  • 14 de nov. de 2024
  • 3 min de leitura



Durante a 2a aula aberta, no início da Especialização na COC/Fiocruz (março 2024), o professor Igor Sacramento deu uma palestra na qual, dentre outras coisas, falou sobre a guinada subjetiva que havia invadido o ambiente comunicativo contemporâneo. Ou dito de outra forma, falou sobre como a autoria havia assumido uma dimensão testemunhal. O autor, o indivíduo, ao falar sobre si mesmo e o que compreende do mundo, o lugar da verdade estaria no eu íntimo e não mais na vida exterior.


O testemunho, o ponto de vista de primeira pessoa, passaria então a assumir o protagonismo da experiência privada, ao mesmo tempo que procuraria produzir identificação e vínculo comunitário com os outros. Dessa forma, de acordo com o professor Sacramento (2018), "a cultura contemporânea estaria marcada pelo alargamento do espaço biográfico" e também pela articulação dessas narrativas biográficas às nossas produções de sentido e de conhecimento - muitas delas projetadas hoje através da internet e das redes sociais.


A experiência de si, ou escrita de si - como já falava Foucault - não é algo novo. Michel de Montaigne (1533-1592), escritor, jurista e político francês , reconhecido como o inventor do gênero ensaio, usava seus escritos como uma forma de explorar e refletir sobre sua própria vida e experiências. Ele acreditava que a introspecção e a autoanálise eram essenciais para compreender a condição humana e a realidade na qual estava inserido.


Mais especificamente, na contemporaneidade, a experiência de si, ou também narrativa de si, pode ser equiparada - pelo menos no meio acadêmico - ao que nas áreas de educação e antropologia é chamado de "autoetnografia". Em texto escrito em parceira com Carmen Guimarães de Mattos (2024), eu me pergunto se esse conceito seria um sinônimo de autobiografia ? De acordo com uma especialista no assunto, os autores que escrevem narrativas de si "...tentam demonstrar a experiência vivida e a humanidade de si mesmos e de seu povo para audiências externas”.


Esses textos exploram temas, diferentes relatos em primeira pessoa e narrativas com experiências pessoais. Tudo isso influenciados pela história, estrutura social e cultura, expressos por meio da ação, do sentimento, do pensamento e da linguagem.


Na autoetnografia, que geralmente é usada como metodologia na área acadêmica, o autor é ao mesmo tempo sujeito e investigador; é a partir da narração de si mesmo que ele enxerga sentido em sua vida através de identidades sociais - raça, classe, gênero, sexua-

lidade, religião, saúde dentre outras.


Voltando ao testemunho e à reflexão feita pelo professor Sacramento, começo a perceber o quanto essas experiências de si, esse "aconteceu comigo" estão sendo usadas para validar experiências singulares. Afinal, "se eu vivi, eu sei, até mais do que qualquer cientista". O ainda: "se eu tomei vacina e passei mal é porque a vacina faz mal e ninguém deveria tomá-la". Um caso singular passa a ser referência para o todo, uma referência de verdade.


Como nos lembra Sacramento, "a experiência (de si) não é condição para o conhecimento". Isso seria uma falsa legitimidade. O conhecimento é construído não apenas com um único testemunho - mesmo que seja válido e pertinente, afinal, não podemos questionar a experiência ou a dor do outro - mas ele é construído com uma gama muito maior de experiências, análises e investigações que procuram dar respostas a um amplo número de casos, mesmo que seu método não seja infalível.


O assunto rende, mas no momento são apenas reflexões iniciais.


Para saber mais :



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